09 Julho 2009
Sobre as verrugas que nos inflamam
Vi uma cena aterrorizante quando liguei a TV hoje pela manhã: uma senhora que implorava o amor do vizinho sob pena de se jogar do alto do edifício em que morava, caso não fosse atendido o seu desejo de com ele viver e a partir dali ficar junto pra sempre. Não pude ver a cobertura completa. Confesso que fiquei estarrecido com o choque emocional que tomei quando dei por mim testemunhando entre o público que assistia aquilo tudo em tempo real. Os câmeras filmavam ao longe o marido, que não se demorou muito a acompanhar tudo aquilo. Ele quase não acreditava que sua esposa estava ali ameaçando se jogar caso o outro não assumisse viver com ela. Saiu em seu carro se esquivando da imprensa. Segundo informações da emissora de televisão, eram casados há oito anos. Mas agora ela queria o vizinho. Não se sabia informação se entre os dois já havia tido algo. Mas o fato é que a mulher em seu choro compulsivo estava a ponto de se engasgar de tanto chorar, rente o parapeito do apartamento, reivindicando que o vizinho a assumisse. Que a amasse profundamente.É assim que me convenço de que o amor só se concretiza numa pessoa se fizer dela refém. O amor é uma aposta que põe em jogo o nosso senso de normalidade. Mas diante da cena que acima testemunhei não posso dizer que fosse um amor puro. No mínimo era um amor subnutrido, regado pela falta de aceitação de si. Pois a aceitação de si é o que disciplina a nossa doação ao outro. Amor sem disciplina é um carro sem freios, um bola de futebol numa ladeira.
Eu não sei se vocês se sentem o mesmo, mas diante de situações como esta, ver alguém mendigar um amor, pondo em risco sua própria vida, ameaçando se jogar do alto de um prédio, dá uma vontade de estar embaixo, com uma torcida para gritar: “pula, pula, pula...” Amor é suicídio mesmo. Para se amar alguém profundamente tem que se ter a consciência de que se o amor é pra velar tem que ser desastroso. Ser desastroso não que dizer não ter apreço por si. Ser desastroso é estar consciente de que o amor é uma verruga que nos inflama silenciosamente enquanto paramos para contar estrelas.
06 Julho 2009
A jaca como afirmação dos homens
Foto: Os homens e a jaca (Wagner Marques)Como sempre, quando estou indo ou voltando do trabalho, gosto de fisgar o que vejo de interessante entre os da minha cidade. Desta vez, antes de chegar ao trabalho, quando parei num chaveiro, no centro da cidade, enquanto aguardava um senhor fazer as cópias de algumas chaves de minha casa, me surgem alguns homens envoltos de uma jaca - sobreposta a um balcão onde se consertava relógios - partilhando-a com voracidade em plenas 8 horas da manhã. Por um momento aquilo me recordou a Santa Ceia. Mas o que mais me chamou a atenção foi o sentimento de união que enchia os olhos daqueles senhores. Entre risos e piadas, se fartavam diante da jaca. Bocas peguentas, bagos caídos, moscas arriscando se chegar. Coisas que fizeram aguçar ainda mais a minha mania de fotografar (sem autorização dos fotografados) com a mais pura discrição aqueles homens. Como se estivesse tentando fazer uma ligação no celular, fotografei, através do celular mesmo, os senhores sem que estes o percebessem. Assim lanço aqui esta fotografia como partilha do mais profundo de sentimento humano que me invadiu nesta manhã. Sentimento arredio, de quem rouba: sentimento de quem rouba as imagens de homens que apostam que mais vale se afirmar através de uma jaca, do que se distanciar por tesouros intangíveis.
01 Julho 2009
Quando se aproxima o toque
A: uma mão sobre a ferida. B: um sim sob a negação. De tão inerte os braços de A se escondiam entre o corpo. De tão móvel as pernas de B esqueciam que o tronco as unia. Era um olho que faiscava, e não luzia nada. Se fosse a sensação do que um sentia pelo outro não poderia haver confissões. Toda confissão desnuda. B não conhecia o que estava fora de si. Assim como A enchia de ternura as coisas que dentro dele se revelava aos poucos, sem causar barulho ou alarido. Era uma dor mansa que invadia a um e a outro. Um baixava a vista, como que querendo dizer “não se aproxime”. O outro estendia os olhos, como que dizendo “a distância não me basta”. “Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais...”, era só uma melodia, e penetrava tudo. Era a ritmia. Uma onda. E era os altos e baixos que sempre surgiam diante do que não deveria ser confessado.“Ponha suas mãos sobre mim e te confesso que não mudei”, um dizia com a boca trancada de tanto estrondo. Que se faça a cruz a tua imagem, disse B sem aspear. Não aspeando também, a tua chaga seja a minha luz, rebateu A sem dar solavancos em sua voz. Talvez porque ambos já trepidassem. E era um querer sem maldade. Pois toda maldade tem um pouco de querer. E quando se deseja sem querença é como um trem descarrilando. Nunca que um fosse pôr a mão sobre o outro com a infantilidade de quem joga a sobremesa fora. A via, B fazia não ver. Mas eram olhos na mesma direção. Que fossem. Sem machucar. Pois olhares também machucam. Os olhos de ambos eram como taças de algodão que se derramavam uma na outra. Eram o cálice que guarda a perfeição da embriaguez.
27 Junho 2009
Quando quero chover

Acho engraçado quando os pingos de chuva ficam se equilibrando sobre os fios. Isso é o que me faz às vezes pensar que certas coisas da vida deveriam ser mais simples do que aparentemente são. É no detalhe das gotas que se equilibram na umidade do inverno que espanto as coisas que me consomem no dia a dia. Penso que nossos olhos nos pedem tão pouco, e na maioria das vezes somos tão mesquinhos a ponto de olhar apenas para o que é abocanhado pelo que nossa carne pede. Aprendo que a cerração da chuva respingando na parede é quase uma pintura que se compõe em sua incoloração. Aprendo que inventar aquilo que a gente vê é desfigurar o que a gente nunca pretendeu sentir. Porque se tem coisas que não existem, cabe a nós inventá-las sempre, como uma pluma que atravessa o ar, acaricia o vento e lentamente desce com sutilidade buscando o chão. É quando o lamento de não sentir o toque dá a vez ao surpreendente. E surpreender é encantar. E o encanto nasce antes mesmo de haver algum aceno, como uma gota que se equilibra sobre os fios, toca o chão faz nascer o improvável. É assim que creio que um pingo de chuva é capaz de inundar um homem.
23 Junho 2009
Sobre a inexatidão do uso do papel higiênico
Alguém sabe a medida certa da quantidade de papel higiênico que vai usar ao ir ao banheiro? Não?! Pois é, também fiquei intrigado quanto a isso. Causa disso foi um fato que aconteceu comigo há alguns dias atrás. Voltando da capital paraibana, João Pessoa, depois de ter cumprido meu dever social, ao ter ido ao casamento de um primo, L; quando no terminal rodoviário fiz um pit stop (antes que o ônibus saisse) para desafogar meu intestino, que me impelia a defecar, e aí um senhor, logo na entrada do WC, responsável pela limpeza sanitária, com a certeira intuição de que eu iria ao sanitário, ergueu-me aproximadamente uns 50 centímetros de papel higiênico, balançou a cabeça e afrouxou um sorriso.Nisso, entre dizer que aquele tamanho de papel não era suficiente e justificar o porquê, peguei o papel como se fosse o bastante para me limpar. Grato e ao adentrar no WC, dei quatro passos em direção ao sanitário. Entrei naquela espécie de divisória, e antes mesmo de sentar ao vaso, verifiquei que de fato a quantidade de papel não daria para deixar limpo o que eu deveria limpar. Em meio àquele cheiro insuportável de banheiro público, retornando até aquele senhor, e já de longe fincando-lhe um olhar de pedinte, ele já fora se dirigindo ao local onde havia deixando o papel e foi metrificando mais outra proporção que acreditava que atenderia às minhas necessidades. Partiu mais um pedaço e me entregou. Agradeci novamente. Presumi que daquela vez ele havia me dado um tamanho suficiente, que aqui não vou precisar, mas que realmente pude me limpar com êxito.
Ao lavar as mãos, depois de ter cumprido com o que meu organismo pedia, saindo do WC com a cabeça atingida por mil interrogações sobre o que havia ocorrido, desde esse dia nunca mais saiu de mim esta indagação: qual a medida certa da quantidade de papel higiênico que se usa ao ir ao banheiro? Entendo que não é uma resposta passível de precisão. Pois que é essa só mais uma medida das coisas que existem na vida e não sabemos como precisá-las. Assim deixei João Pessoa, e trouxe comigo a Garanhuns a inexatidão de medida certa do uso pessoal do papel higiênico.
18 Junho 2009
Dos medos de quem escreve
O primeiro medo de quem escreve é sempre o último ponto. Final. Creio. Pois, a aventura de escrever é algo que nos acompanha desde a primeira linha, ou verso, e vai até o sinal de pontuação (se houver) da última palavra. Terminar um texto é parir um pouco da gente. É sempre uma gestação um pouco conturbada a da arte da escrita. Num primeiro momento, escrevemos pela necessidade do prazer, da excitação desejada. Depois, ao fim do que foi escrito, vamos limpar todo espermatozóide que ficou sobre a superfície das palavras. Fazemos então uma assepsia verbal.É infinitamente mais difícil assumir o término de um texto do que propriamente assumir que o texto está em fase de composição. Principalmente se for um texto literário, que, por sua própria natureza, nunca está encerrado em si. Quem não tem medo do que o outro vai pensar sobre o que você escreveu? Quem nunca temeu um comentário desastroso sobre sua escrita? E é aí onde mora a magia da escrita: esperar a posição do outro diante de você, diante dos efeitos do que seu texto causou. Escrever, em última estância, é uma afronta ao outro. É permitir que as suas palavras se tornem espelhos.
Quando se termina um texto dá-se um “adeus” ao lado escuro da alma. E é justamente aí onde mora o medo do ser humano: ser revelado, conhecer-se. E isso é uma das funções da Literatura: revelar o homem, servindo de suporte para que ele próprio se conheça a partir de uma realidade criada. Assim, o término de um texto é sempre um “o que quis dizer com isso?” Entretanto, o ponto final é sempre o começo de uma nova história. Ouso dizer que a vida só começa quando a escrita esconde o ponto final. Ponto.
10 Junho 2009
A outra saliva
Pintura O Beijador (Picasso)Meu primeiro beijo na boca foi quase forçado – como tendem a ser os primeiros beijos. Eu não estava pronto ainda para descobrir o prazer através da boca. Eu sabia que aquilo deveria ser bom. Meus amigos todos já haviam falado. Já haviam beijado. No entanto, nada que me causasse pressa. Só que determinada vez foi inadiável. “Amanhã, em frente à casa da esquina, às três horas”, foi o que J. me disse, dando as costas para mim. Indo embora depois de dizer: “escove os dentes”. Meus amigos ainda não haviam me dito que para se beijar teria que escovar os dentes. Também, eu não tinha mau hálito. Fiquei curioso sem saber o porquê daquilo. Disseram-me depois que J. queria me beijar, que estava enamorada comigo.
Aquilo foi o suficiente para me fazer gelar os pés e me causar um leve tremor nas mãos. Minha respiração se tornou tão ofegante, que me fez ficar com uma sensação de porco no farelo. Não sabia o que fazer, ou melhor, o que dizer. Não sabia se eu saia correndo para casa sem dar satisfação a ninguém, e fingia que não havia escutado nada; ou dizia que ela era feia e não queria nada com ela, como faz qualquer criança como álibi de seus sentimentos mal resolvidos. Resolvi não fazer nada disso. Em meio à barulhada de meus amigos, estufei os peitos, ergui a cabeça e me retirei como se fosse um homem que tivesse uma grande missão a cumprir no outro dia.
Em casa, após um banho e a janta, algo começou a mexer com meu estomago. Não foi fácil chegar o sono. A noite se aprofundava. Eu, aos cochilos interrompidos: visualizando J. chegando até mim e tocando seus lábios nos meus. Mesmo desta forma não dava para relatar nada sobre a sensação de um beijo. Assim, a manhã rasgou a madrugada. O sol desceu cintilante. Após o café da manhã, segui para escola. A manhã naquele dia custou a passar. Junte-se isso à minha pouca concentração nas aulas. Chegando em casa, tão logo ao almoçar, peguei um manual de escovação que havia em um kit escolar meu. Escovei meus dentes impecavelmente. A hora avançou.
Quando apontei à casa da esquina, já havia muita gente ao longe. Alguns, trepados nas árvores; outros, por sobre os muros, outros ainda se escondendo atrás dos carros. J. já estava lá. Mas ao chegar perto dela o que dizer? Não sabia. Ia para ali com a mais pura inocência de quem iria ser beijado por uma menina 3 anos mais velha. Não houve tempo para construção de nenhum discurso entre eu e J. Ao chegar perto dela, transcorrido 4 segundos, ela atirara seus lábios nos meus. Que coisa estranha era uma língua entrando em minha boca! Os meus amigos que acompanhavam tudo só faziam encher de estardalhaço a rua, em meio a gritos e assovios. Minha boca era então beijada pela primeira vez. Meio que apulso. Forcei-me. Não estava pronto para permitir a saliva de outra pessoa na minha boca.
